A bicicleta que durou onze dias em Berlim: o que eu aprendi sobre comprar, trancar e pedalar na cidade

Eram sete e quarenta da manhã, fazia uns quatro graus, e eu estava parado na calçada de uma rua de Neukölln olhando para um poste. No poste havia uma trava de cabo, cortada, pendurada como um cadarço solto. A bicicleta que eu tinha comprado onze dias antes não estava mais ali. Lembro de ter ficado um tempo esperando que ela reaparecesse, como se tivesse só se afastado um pouco para dar uma volta.

Eu tinha pago 140 euros por ela num anúncio de internet. Uma bicicleta holandesa, verde-escura, com cestinha e marchas no cubo, que o vendedor jurou ter sido revisada. A trava tinha custado 15 euros no supermercado. Levei alguns meses, uma segunda bicicleta e muita conversa com gente que mora aqui há mais tempo para entender que a relação entre esses dois números era o problema inteiro.

Por que eu quis uma bicicleta logo na primeira semana

Berlim é plana, cheia de ciclovia e com distâncias que enganam no mapa. Da minha casa até o curso de alemão eram vinte minutos de bicicleta ou quarenta de transporte, com uma baldeação. O passe mensal de transporte, que já custou 49 euros quando o Deutschlandticket foi lançado, hoje passa dos 60. Fazendo a conta de cabeça, a bicicleta se pagaria em pouco mais de dois meses.

E tinha outra coisa, menos racional. Nas primeiras semanas, eu me sentia turista em tudo. Pedalar pela cidade de manhã, com o frio no rosto e a fila de bicicletas parando no sinal da Sonnenallee, era a primeira sensação de estar morando aqui de verdade. Todo mundo que eu conhecia tinha bicicleta. Parecia o documento de entrada que faltava depois do Anmeldung.

Então comprei rápido, do jeito que se compra quando a vontade é maior que a informação. Achei um anúncio, marquei no mesmo dia, testei por duas quadras, paguei em dinheiro vivo e voltei para casa pedalando, orgulhoso.

O mercado de bicicletas usadas que ninguém me explicou

Foi só depois do roubo que comecei a prestar atenção em como funciona o mercado de bicicleta usada em Berlim. Os preços variam muito. Uma bicicleta de cidade funcional sai por algo entre 100 e 250 euros em anúncio particular, e uma parte do que circula nessa faixa foi roubada de alguém. Quem me explicou isso foi o dono de uma oficina em Kreuzberg, enquanto trocava o pneu da minha segunda bicicleta. Ele falou com a naturalidade de quem comenta a previsão do tempo.

Ele me ensinou a desconfiar de três coisas num anúncio: preço muito abaixo do que as outras do mesmo modelo pedem, vendedor que não quer que você veja a bicicleta perto da casa dele e marca a entrega numa esquina, e ausência total de nota ou de qualquer documento de compra. Não que toda venda sem nota seja de bicicleta roubada. Mas quando as três coisas aparecem juntas, a chance é alta.

Olhando para trás, a minha primeira compra tinha duas das três. O encontro foi na saída de uma estação de metrô, e o preço estava uns 60 euros abaixo de bicicletas parecidas. Não tenho como saber se ela já era roubada. Mas a ideia de que eu posso ter comprado uma bicicleta roubada, e depois ter tido ela roubada de mim, ficou me incomodando por semanas.

A segunda bicicleta eu comprei numa oficina que vende usadas revisadas, com recibo e o número do quadro anotado. Paguei 230 euros, quase o dobro da primeira. Foi a melhor diferença de 90 euros que gastei em Berlim.

A trava custa mais do que parece, e faz sentido

A segunda lição foi sobre a trava. Aquele cabo de 15 euros que eu achei suficiente se corta em segundos com um alicate. Quem mora aqui usa trava em U ou trava dobrável de aço, das que custam entre 50 e 100 euros. Na primeira vez que vi o preço, achei absurdo gastar metade do valor da bicicleta numa trava. Depois do roubo, a conta ficou óbvia: a trava boa não é proporcional ao preço da bicicleta, é proporcional ao trabalho que você quer dar para o ladrão.

Aprendi também o jeito de prender. O quadro, não só a roda. Num objeto fixo de verdade, e não num poste baixo em que dá para levantar a bicicleta por cima. Na rua, e não no pátio interno sem luz do prédio. E, se possível, perto de outras bicicletas mais fáceis de roubar que a minha — um conselho meio cínico que ouvi de três pessoas diferentes, sempre com um meio sorriso.

Hoje uso uma trava dobrável de aço que pesa quase um quilo e meio, presa no quadro com um suporte. Ela é chata de carregar, faz barulho nos paralelepípedos e custou 75 euros. Minha segunda bicicleta está comigo há quase um ano.

O boletim de ocorrência que eu achei que era inútil

Na manhã do roubo, minha primeira reação foi não fazer nada. Achei que dar queixa não ia trazer a bicicleta de volta, e tinha razão sobre isso. Uma colega de curso, alemã, me convenceu do contrário por outro motivo: o seguro.

Eu tinha feito um seguro de conteúdo da casa, o Hausratversicherung, quase por obrigação, porque a proprietária recomendou. Nunca tinha lido as condições. Quando li, descobri que ele cobria roubo de bicicleta, mas só com a extensão específica para isso, que eu não tinha contratado, e só se a bicicleta estivesse trancada. Não fui reembolsado. Mas aprendi que, para qualquer pedido de indenização, a seguradora exige o registro policial, que em Berlim dá para fazer pela internet, em alemão, em uns vinte minutos.

Para a segunda bicicleta, contratei a extensão. O valor extra por ano varia bastante entre seguradoras e depende do valor segurado. No meu caso, ficou em algo perto do preço de uma trava boa por ano. Guardei a nota de compra, anotei o número do quadro e tirei fotos da bicicleta. Tudo numa pasta que espero nunca precisar abrir.

As regras de trânsito que eu aprendi levando bronca

Roubo à parte, a primeira bicicleta também me ensinou que pedalar aqui não é como pedalar no parque no domingo em São Paulo. Na minha segunda semana, subi na calçada para desviar de um caminhão de entrega parado na ciclovia. Andei uns vinte metros. Uma senhora de casaco bege parou, olhou para mim e disse, bem devagar, uma frase que eu não entendi inteira, mas entendi o suficiente. Depois descobri que adulto pedalando na calçada pode levar multa, e que ela não estava sendo antipática: estava defendendo o espaço dela.

Vieram outras lições do mesmo jeito. A luz. Numa noite de novembro, às cinco e meia da tarde e já completamente escuro, um policial de bicicleta emparelhou comigo na Karl-Marx-Straße e fez sinal para eu parar. Minha bicicleta tinha farol, mas não funcionava. Ele foi educado, explicou que luz dianteira e traseira funcionando são obrigatórias, e me deixou ir com um aviso. Saí dali direto para uma loja e gastei 25 euros num par de luzes recarregáveis. No inverno berlinense, em que escurece antes das cinco, isso não é detalhe.

E teve os trilhos do bonde. Em alguns bairros do leste, os trilhos do Tram cortam as ruas em ângulos traiçoeiros, e a roda fina entra no vão com uma facilidade assustadora. Eu não caí, mas vi uma menina cair na minha frente na Warschauer Straße, num dia de chuva. Desde então, atravesso trilho sempre o mais perpendicular possível, mesmo que precise desviar um pouco da linha reta.

Nada disso aparece no anúncio da bicicleta, e ninguém me explicou antes. Os berlinenses aprendem essas coisas crianças, em aulas de trânsito na escola. A gente aprende na rua, às vezes com bronca, às vezes com susto.

O que eu faria diferente se chegasse hoje

Eu não compraria bicicleta na primeira semana. Usaria o transporte por um mês, conheceria os bairros, entenderia onde eu ia estacionar todo dia. A pressa de me sentir morador me custou 155 euros, entre a bicicleta e a trava, e uma manhã bem ruim.

Compraria numa oficina ou de alguém que conseguisse mostrar de onde a bicicleta veio, mesmo pagando mais. Separaria desde o começo o dinheiro de uma trava de verdade, e não o que sobrasse. Compraria as luzes junto, no mesmo dia. E leria as condições do seguro da casa antes de precisar dele, não depois.

Somando tudo, a minha segunda bicicleta, com trava, luzes e a extensão do seguro no primeiro ano, custou mais ou menos o dobro do que eu tinha imaginado gastar ao chegar. Ainda assim, fazendo a conta contra o passe de transporte, ela se pagou em uns sete meses. A diferença é que agora a conta é honesta.

E, sim, eu teria bicicleta de novo. Mesmo com o roubo, pedalar em Berlim continua sendo a parte do cotidiano de que eu mais gosto. No inverno, quando escurece antes das cinco e a cidade parece cinza de um jeito que a gente não conhece no Brasil, são os vinte minutos de bicicleta até o curso que me lembram por que eu vim. Só que agora eu tranco o quadro.


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